20111228

Mim pra quê?

- Recebi uma mensagem. É pra mim ligar... 
- Mim não liga, mim não faz nada!
- Tá bom, tá bom. Pra EU ligar.
- Assim está melhor.
- Mas, para que existe esse mim, então?
- Para que tu possas dizer coisas a mim.
Ambas abrem um sorriso.

Simples assim... 

20111102

Nossa inequação

Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.

Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base...

Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo ortogonal, seios esferóides.

Fez da sua
Uma vida
Paralela à dela.

Até que se encontraram
No Infinito.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz.

Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Retas, curvas, círculos e linhas sinoidais.

E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.

Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.

Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo.
Uma Unidade.

Era o Triângulo,
Chamado amoroso.
E desse problema ela era a fracção
Mais ordinária.
Trechos de Poesia Matemática, Millôr Fernandes

20110623

          É preciso viajar por si, com seus olhos e pés para entender o que é seu. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Viajar para lugares que não conheça para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos e simplesmente ir ver. 
(adaptado) Amyr Klink.

20110527

Gostinho de filtro solar

Esses dias tive vontade de sentir outra vez o gostinho de Sundown em seus lábios...
Às vezes me dá uma saudade desse sabor,
Sabor de apaixonados numa desbotada primavera,
De abraços apertados e loucuras sob um sol do outono,
De beijos com versos numa tarde de inverno,
Dos dias e noites no aconchego de seus braços...
Que agora tem o gosto vago do verão que não tivemos.
Das lembranças que reinvento para ficarem menos amargas.

Por ora, nosso amor está cítrico: um pouco doce, um pouco ácido, mas muito apetitoso.
Com chocolate, como num fondue, então... não quero nem pensar.
Parece que a gula vai me possuir a qualquer momento assim...

20110408

(A propósito dos dois risos)

(...)
            A dominação do mundo, como se sabe, é dividida por anjos e demônios. Contudo, o bem do mundo não implica que os anjos levem vantagem sobre os demônios (como eu achava quando era criança), mas que o poder de uns e de outros seja mais ou menos equilibrado. Se existe no mundo muito sentido indiscutível (o poder dos anjos), o homem sucumbe sob o seu peso. Se o mundo perde todo o seu sentido (o reino dos demônios), também não se pode viver.
            As coisas de repente privadas de seu suposto sentido, do lugar que lhes é destinado na ordem esperada das coisas provocam em nós o riso. Em sua origem, o riso pertence portanto ao domínio do diabo. Existe alguma coisa de mau (as coisas de repente se revelam diferentes daquilo que pareciam ser), mas existe nele também uma parte de alívio salutar (as coisas são mais leves do que pareciam, elas nos deixam viver mais livremente, deixam de nos oprimir sob sua austera seriedade).
            Quando o anjo ouviu pela primeira vez o riso do demônio, foi tomado de estupor. Isso se passou num festim, a sala estava cheia de gente e as pessoas foram dominadas umas após as outras pelo riso do diabo, que é horrivelmente contagiante. O anjo compreendeu claramente que esse riso era dirigido contra Deus e contra a dignidade de sua obra. Sabia que tinha de reagir rapidamente, de uma maneira ou de outra, mas sentia-se fraco e sem defesa. Não conseguindo inventar nada, imitou seu adversário. Abrindo a boca, emitiu sons entrecortados, descontínuos, em intervalos acima de seu registro vocal, mas dando-lhe um sentido oposto: Enquanto o riso do diabo mostrava o absurdo das coisas, o anjo, ao contrário, queria alegrar-se por tudo aqui embaixo bem ordenado, sabiamente concebido, bom e cheio de sentido.
            Assim, o anjo e o diabo se enfrentavam e, mostrando a boca aberta, emitiam mais ou menos os mesmos sons, mas cada um se expressava, com seu ruído, coisas absolutamente contrárias. E o diabo olhava o anjo rir, e ria cada vez mais, cada vez melhor e cada vez mais francamente, porque o anjo rindo era infinitamente cômico.  
            Um riso ridículo é um desastre. No entanto, os anjos ainda assim obtiveram um resultado. Eles nos enganaram com uma impostura semântica. Para designar sua imitação do riso e o riso original (do diabo), existe apenas uma palavra. Hoje em dia nem nos damos conta de que a mesma manifestação exterior encobre duas atitudes interiores absolutamente opostas. Existem dois risos e não temos uma palavra para distingui-los.

O Livro do Riso e do Esquecimento, do autor tcheco Milan Kundera. p. 73.

O meu trecho favorito entre as 7 histórias do livro, que fala de Praga, da mémoria e do esquecimento,
de amores, do ridículo e sobre diversos risos... Esse é um para ler, rir, e depois pensar.
Coloquei esse texto aqui porque eu nunca pude definir meus diferentes risos, que de forma sutil são expressões de sentimentos completamente distintos (por vezes até mesmo obscuros). Não era só eu... 

20110401

Cansar

Só eu e minha insanidade agora.
Mas eu me canso dela.
E ela, um dia há de se cansar de mim.

20110318

To say goodbye

You could sit by my side and talk me about your everyday concerns...
Asking about the mine.
But, we had never mean to be us.
We had seen eye to eye...
You kissed me.
Our moments, our passion,
Warmer for the sparker, look that:
So small that the mirror frames whole of it,
Isn't so much larger than the fire in this bed, right?

You'd think that your memory might will be satisfied, huh?
But the mine are not, man.
It's so empty after the dirty love that we've made..
I skip my pride. I wanted forget it.

You do think, thought,
I overdo it a little.
Perhaps it's the rest of my insanity.
And it's come to this.
I can't speak about dark dream or any fear.
A noise, and the past was chased away,
Dispersed into the shadows
Like smoke by the brighter,
Broken present.
 
To an old (and cheeky) friend,
the most foolish and hot man i meet.

20110308

Mulheres, do mundo e de todos os tempos

Eis um dia só para nós, o Dia Internacional da Mulher: 8 de março, assim instituído em homenagem às 129 operárias de uma fábrica têxtil de Nova York que foram queimadas em 1857, após uma ação policial contra suas reivindicações de redução da jornada de trabalho de 14 para 10 horas e a licença-maternidade. Um motivo em parte infeliz, mas a homenagem é bem merecida pela iniciativa.
Acho importante saber de onde vem essa data comemorativa. Lembrar que ela não é para mulheres apenas maravilhosas, talentosas, beldades, ricas e poderosas... Também não é apenas um dia no ano para bajularmos as que fazem parte de nossa vida. Não é um culto à feminilidade ou ao feminismo. Não! Ele serve para celebrar mulheres que fazem a diferença! Sua origem ilustra bem isso. Pelo menos no meu ponto de vista... Acho que é preciso algum mérito.
Hoje é o dia em que celebro as mulheres que mudaram a história do mundo, aquelas que lutam diariamente por sua dignidade, aquelas que têm o futuro em suas mãos, educadoras, médicas, enfermeiras, ambientalistas, enfim, humanas que dão alguma contribuição ao lugar em que vivem. Também, aquelas sem as quais eu não imagino viver sem, e importantes para mim: minha mãe, minhas amigas, minhas professoras, a diretora da escola... e outras que me inspiram, simplesmente.
Por muito tempo, as mulheres estiveram em segundo plano, sem voz, sem vida própria, com algumas exceções que são as poderosas rainhas, princesas, etc., cuja sorte impediu qualquer mácula, e as guerreiras, corajosas e implacáveis. Mas não vou divagar sobre elas agora, seria abrangente demais colocar aqui informações tão distantes e difusas de personalidades monárquicas, lendárias, quase mitológicas ou santas, como por exemplo, Joana d'Arc. Vou me ater a fatos mais ao nosso alcance possível e que influenciam nossa geração.
Em 1792, na Inglaterra, falou a primeira voz feminista na história: Mary Wolstonecraft escreveu um grande clássico, A Reivindicação dos Direitos da Mulher, no qual defendia uma educação para meninas que aproveitasse seu potencial humano. Muito bem! É pela educação que se começa. Aqui no Brasil que ela sempre esteve atrasada. Só lá em 1827, surge a primeira lei sobre educação das mulheres a permitir que freqüentassem as escolas elementares, as instituições de ensino mais avançadas eram proibidas a elas. Aí só em 1879 o governo as autoriza a estudar no ensino superior, mas as que iam por este caminho eram criticadas na sociedade, affe! E claro, eram só as ricas que podiam. A primeira médica a se formar no Brasil, em 1887, foi Rita Lobato Velho. As pioneiras sempre tinham dificuldade em se afirmar profissionalmente, chegavam a ser ridicularizadas. Ossos do ofício, talvez... Educação sempre foi um luxo por aqui. Parece que cultura também. Em 1885, a compositora e pianista Chiquinha Gonzaga estréia como maestrina, a primeira mulher no Brasil a estar à frente de uma orquestra. Precursora do chorinho, Chiquinha compôs mais de duas mil canções populares, entre elas, a primeira marcha carnavalesca do país: "Ô Abre Alas". Além disso, escreveu ainda 77 peças teatrais. Uau! Em 1996, a escritora Nélida Piñon é a primeira mulher a ocupar a presidência da Academia Brasileira de Letras. Exerce o cargo até 1997 e é membro da ABL desde 1990. Que sonho!
Socialmente, o papel da mulher começou a se transformar lá na Revolução Francesa (1789), com uma posição significativa na sociedade, começaram a surgir movimentos pela melhoria das condições de vida e de trabalho, por participação política, pelo fim da prostituição, pelo acesso à instrução e pela igualdade de direitos entre os sexos. (Ah, as francesas são demais.).
Com a Revolução Industrial, a absorção do trabalho feminino como mão-de-obra barata, a mulher entra de forma definitiva na dinâmica produtiva. Ela passou a ser obrigada a cumprir jornadas de até 17 horas de trabalho em condições insalubres e submetidas a espancamentos e humilhações, além de receber salários até 60% menores que os dos homens. Havia a premissa de que elas tinham quem as sustentasse. Ora bolas, faça-me o favor! As manifestações operárias iniciaram na Europa e nos Estados Unidos, tendo como principal reivindicação a redução da jornada de trabalho para 8 horas diárias. Em 1819, a Inglaterra aprovou a lei que reduzia para 12 horas o trabalho das mulheres e dos menores entre 9 e 16 anos. Só!

Anne Frank
Da época da Segunda Guerra Mundial, não posso deixar de mencionar Olga Gutmann Benário (1908-1942), a militante comunista alemã (desde o 15 anos!), judia, que veio ao Brasil na década de 30 apoiar o Partido Comunista do Brasil, recrutada como guarda-costas de Luis Carlos Prestes (não podia se cuidar sozinho!). Foi deportada de volta à Alemanha pelo governo de Getúlio Vargas, presa e transferida para o campo de concentração de Lichtenburg, depois para Ravensbrück, onde organizou atividades de solidariedade e resistência, com aulas de ginástica e história. Por último, foi levada para o campo de extermínio de Bernburg, no qual morreu em 1942. Uma revolucionária incrível, cuja lealdade impressiona. Outra figura feminina importante do holocausto é Annelies Marie Frank (1929-1945), a dos diários de Anne Frank, outra alemã judia, morta num campo de concentração aos 15 anos; viveu um tempo em Amsterdã, escondida num Anexo Secreto, acima do escritório de seu pai, no qual começou a escrever no seu diário, Kitty, que ganhou aos 13 anos; após uma denúncia, sua família foi deportada, levada ao campo de Auschwitz e por último ela e sua irmã foram parar num campo em Bergen-Belsen, onde morreram por causa de uma epidemia de tifo. Admiro muito sua disposição para a escrita mesmo sob circunstâncias tão difíceis. Seu pai foi o único sobrevivente e seu diário foi publicado como livro pela primeira vez em 1947.

Durante as Guerras, com os homens na linha de frente, mulheres assumiram os postos nas fábricas e nos estaleiros, passaram a conduzir comboios ou a operar máquinas. Passada a guerra, nada voltou a ser como antes, depois de crises tão marcantes, nunca mais voltariam ao segundo plano. Daí, basta um salto para a globalização da moda. Nos anos da ocupação alemã - que impôs à França leis de reserva de estoques e limitações drásticas de recursos para a fabricação de vestimentas e acessórios – houve a criativa resistência cultural dos franceses, 'improvisar' passou a ser a palavra de ordem, conservando assim a fama de Paris como capital mundial da moda. Assim é preciso "buscar na moda aquilo que ela tem de revelador do ambiente político, econômico e cultural de sua época.", o que é muito bem mostrado no livro A Moda e a Guerra, de Dominique Veillon. Nada de modismos, mulheres, a moda é muito mais do que isso, é história, economia e representações culturais e sociais. Nessa área, nenhuma mulher melhor do que Coco Chanel (foto à esquerda), a Gabrielle Bonheur Chanel (1883 -1971), estilista francesa sempre à frente do seu tempo, muuuito mais do que a marca que ela criou, é um símbolo de praticidade e elegância simultâneas.
Em 1945, a igualdade de direitos entre homens e mulheres é reconhecida em documento internacional, através da Carta das Nações Unidas. Hahahá, só no papel mesmo! Mesmo atualmente, no mundo ocidental falta muito ainda para se alcançar a igualdade no trabalho. Quando se considera filhos e o trabalho doméstico, as mulheres trabalham mais do que os homens, quer no mundo industrializado, quer no mundo subdesenvolvido (20% a mais no mundo industrializado, 30% no resto do mundo). No Brasil, o percentual de mulheres chefes de família cresceu 79% em dez anos, passando de 10 milhões em 1996 para 18 milhões em 2006. E aí? Outro problema a ser resolvido. Pois, mundialmente, as mulheres ganham em média 30% menos do que os homens, mesmo quando têm o mesmo emprego. As mulheres detêm apenas 1% da riqueza mundial, e ganham 10% das receitas mundiais, apesar de constituirem 49% da população.
Voltando às feministas, falarei do seu papel no sufrágio, direito de voto, e na participação feminina na política ao longo da história. As ativistas do feminismo surgidas no século XIX eram conhecidas como suffragettes, sufragistas em português, linkou agora? A grande representante desse movimento sufragista feminino foi Katherine Wilson Sheppard, da Nova Zelândia, país no qual pela primeira vez no mundo a mulher teve direito ao voto, em 1893. No Brasil o voto só é garantido às mulheres em 1932 com a promulgação do novo Código Eleitoral por Getúlio Vargas. No entanto, o primeiro voto feminino aqui – e na América Latina (!) – foi em 25 de novembro de 1928 em RN, onde foi eleita a primeira prefeita da história brasileira: Alzira Soriano de Souza, de Lages. Na Índia, a estrategista e brilhante pensadora política Indira Gandhi foi Primeira Ministra de seu país duas vezes até o seu assassinato em 1934. Na Argentina, Evita Péron (Eva, 1919-1952), casada com o presidente Peron, lutou pelos direitos dos trabalhadores e da mulher; em 1974, Isabel Perón torna-se a primeira mulher a ocupar o cargo presidencial. A Líder do Partido Popular de Paquistão, Benazir Bhutto (1953-2007), foi a primeira mulher que ocupou o cargo de premiê de um país muçulmano; dirigiu o Paquistão em duas ocasiões e foi assassinada em plena campanha política. As mulheres estão sub-representadas em todos os corpos legislativos mundiais. Em 1985 a Finlândia detinha a maior percentagem de mulheres na legislatura nacional, com aproximadamente 32% Atualmente, a Suécia tem o maior número, com 42%. A média mundial é apenas 9%.

Louise Weiss et suffragettes, Paris, 1935.
Pausa agora para uma homenagem de nível científico, indispensável para o mundo das químicas, a cientista mais confirmada: Maria Sklodowska Curie (1867-1934), pioneira no estudo da radioatividade, cuja nação, Polônia deu origem ao nome do elemento Po, foi a primeira pessoa a ser laureada duas vezes com o Prêmio Nobel, o de física em 1903 (com seu marido, Pierre, e Becquerel) e o Nobel de Química em 1911 (seu centenário está sendo comemorado este ano no IYC =) pela descoberta dos elementos Rádio e Polônio, e foi a primeira mulher a ocupar o cargo de professora de Física Geral da Faculdade de Ciências, na França. Pronto.
E no âmbito da sexualidade também temos quem celebrar: Simone de Beauvoir, escritora francesa que escreveu o livro O Segundo Sexo, no qual faz uma análise da condição feminina, lançado em 1949. Quem mais? Katharine Mccormick e Margaret Sanger! Exemplos de assertividade e determinação femininas. Elas perguntaram ao cientista Gregory Pincus: "o senhor criaria uma pílula contra a gravidez que fosse fácil de usar, eficiente e barata? Nós financiamos, haha.". Audaciosas, lançaram esse desafio. Dito e feito. O trabalho de Pincus deu certo e em 1957 era aprovada a venda do Enovid-10, um contraceptivo oral vendido como um medicamento para complicações menstruais. Só em 18 de novembro de 1960 seria oficialmente permitida a sua venda como método contraceptivo. Finalmente as mulheres podiam viver plenamente o sexo sem receios e a gravidez. Não, a disseminação do uso do contraceptivo oral não foi imediata. Apenas em 1967, antes do início dos protestos de Maio de 68, a venda da pílula era aprovada na França. Já as brasileiras apostavam na liberdade sexual inspiradas pelos movimentos civis da década de 60 e em vingança à repressão moral vivida nos anos 50, enfrentando a fúria da classe conservadora ou a histeria coletiva quando o assunto era aborto. A referência para elas foi Leila Roque Diniz (1945-1972), conhecida como a Mulher de Ipanema, defensora do amor livre e do prazer sexual é sempre lembrada como símbolo da revolução feminina, que rompeu conceitos e tabus por meio de suas idéias e atitudes. As que corriam na frente e se opunham às convenções eram invejadas e criticadas pela sociedade machista das décadas de 1960 e 1970. Eram tidas como vulgares. O sexo seguro já não é mais só uma opção. Cuidar de si é a única garantia. Em 1983 o Ministério da Saúde cria o PAISM - Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher, em resposta à forte mobilização dos movimentos feministas, baseando sua assistência nos princípios da integralidade do corpo, da mente e da sexualidade de cada mulher. O que resta agora é continuar na luta pela paridade salarial e por sua segurança física e moral.
Depois disso, mulheres, que sejam felizes, sendo o que bem entenderem!
Isso tudo era apenas para mostrar que ser mulher vale a pena, sim. Nós somos maravilhosas. Só nós temos o DNA mitocondrial (obrigada, mamãe, pelo meu!), nosso mundo não seria nada sem nós. O futuro é das mulheres com atitude. Você PODE tudo para fazer a diferença, o primeiro passo é querer. Porque há mulheres que merecem ser celebradas todos os dias...

Fontes dos dados históricos, estatísticos e imagens:
google images; Wikipédia; ibge.gov..br/ibgeteen; loucuramental.com; conexaoprofessor.rj.gov.br

20110306

Esquecida

Princesa Amnésia
"O esquecimento é uma idéia
brincando de esconde-esconde dentro de mim."

           Uma das minhas princesas favoritas, a outra é a de Bufarinhas, une humereuse (devoradora, especialmente de livros) como eu, com quem eu muito me identifico. Elas são do livro de Philippe Lechermeier, Princesas Esquecidas ou Desconhecidas, lindamente ilustrado, engraçadinho e que indico para qualquer menina, de qualquer idade, e para qualquer mulher que ainda possua uma dentro de si.
    "Fala de princesas como nunca antes se falou,
são mostradas de uma forma como você nunca viu. Mas não é só. "

20110301

Neuronizando

Serotonina

         Quem mexeu na minha serotonina? Ah, chega. Menos dopamina e mais opióides, por favor! De nada me adiantam esses surtos e curtos circuitos de alegria quase maníaca. Um antipsicótico cairia bem, porque tal de namorado é coisa complicada, não acredito em qualquer efeito prolongado que digam que tenha.
         Minhas oxitocinas andavam incontroláveis, garotinhas traiçoeiras andando de complô com a Dop para acabar com minha razão. Elas riem a torto e direito de mim, e na falta de outras reações, até rio junto. A expressão de mim mesma se esforçando para se conectar aos objetos, embora objetos internos. Ou seja, ilusões, e algumas distorções. A fantasia permite que eu me sinta conectada e ao mesmo tempo livre de qualquer relacionamento. 
        Essas mesmas Oxitocinas impertinentes, como se não bastasse, provocam meu lobo da frente, já que sua posição frontal no córtex cerebral o torna um alvo fácil, deixando-o frequentemente avariado, mas ele já está velhinho e ainda mais sereno, não o atingem tanto (isso é o que provocaria ciúmes infundados e também aqueles cheios de razão...). Ainda bem...
         Mas este lobinho não é tão manso assim, não, se estressa fácil e fica com vontade de explodir com (quase)tudo. Aí vem aquela enxurrada de cortisol que embrulha o estômago, deixa a boca seca e o coração perde o compasso. Esse precisa de (psico)terapia cognitivo-comportamental, em grupo de preferência, com a matilha(?) lupina toda reunida.
         Se não vigio minhas expressões faciais e corporais, nuances no tom de voz, me surgem pessoas inconvenientemente cheias de compaixão curiosa, intrincando processos cognitivos e se colocando no lugar de condolente sem nem saber o que se passa e, por isso, não podem fazer nada. Aí já fico impaciente.
[volto logo]
         Parei na desconfiança. Não, não estou desconfiando deste texto... É que logo tenho aula, de OPU ainda por cima! Não, na verdade eu desconfio de mim mesma. As obrigações escolares me chamam, até mais.
[de volta...]
         Pois bem, com a impaciência vem a desconfiança e seus exageros em testosteronas bizarras, surto, fico como que uma louca e dependente química, especialmente de teobromina, noradrenalina, epinefrinas, metil-carbinol (em vodka, por favor, aquela Vodka: connecting people), cafeína, etc, desequilibrando minhas sínteses de dopamina e, assim, a vasopressina já se mete também, não sei por quê. Além disso, as noites insones são o problema maior por vir, pois tenho de me preocupar com meus neuro-receptores no caso de não ter um bom sono REM (rapid eye moviment, não importa se não faz muito sentido, é isso mesmo), uma vez que eles perdem a sensibilidade à serotonina e à noradrenalina, o que leva a deficiências na função cognitiva (!!!). E depois me perguntam por que tenho saudades do meu Alprazolam, ora essa... Quem mais seria um benzodiazepínico tão querido quanto ele?
          Oh, não, que infeliz engano! Pode ser fatídico, mesmo que acidentalmente, relacionar-se com esse diazepínico! Alprazolam pode piorar notavelmente a transtornada falta de controle de qualquer pessoa com Borderline, no limite entre neurose e psicose (Stern, 1930). Claro, há muita reatividade aí, as emoções perdem completamente suas dimensões e lá se vai a noção da realidade, do tempo, e de que os outros são apenas humanos, nem mais nem menos. A vítima podia ser eu, pode ter sido, ou pelo contrário, posso ter ou ter tido muita sorte.
         Toda essa loucura e ausência de ser dá certo medo. Os batimentos cardíacos aceleram mais que o próprio som (ai, meu miocárdio!), pulmões a pleno vapor e glândulas supra-renais esbanjam adrenalina. Os músculos ficam tensos e as pupilas dilatadas, ampliando a visão terrível de tudo ao redor. Isso se faz sentir em todo o meu estupor.
         Fico, então, perdida no meio dos disparos de meus próprios neurotransmissores e por vezes caio num niilismo descabido, escuro e profundo, quase me afogo, ou seria como ser sugada por um buraco negro. Só volto quando a realidade me tira do transe ou quando acordo de uma quase morte, o sono perfeito interrompido.
         Toda essa parafernália bizarra no meu cérebro (ou é ele que me tem?) brincando com minha imagem me foge ao controle, embora eu pense que a compreendo. E tem mais alguma coisa jogando aqui... Algum engraçadinho que faz, vez em quando, vodu comigo, enfiando espadas nas minhas costas, me dá choques, venda meus olhos, me estonteia, quase desmaio, tenho vertigens. Não sei o quê nem quem.
         Pode ser também que eu nem esteja aqui de verdade. Então, o que tenho a ver com isso?
         Que neuronia...

20110223

Ela, ainda estava lá

        Bonjoour! Decidi ir ver o sol nascer hoje. Espero que voltes bem [e trate de falar comigo antes de amanhã, seu, seu... seu sumidinho!]. Logo, te mando um beijo pelo vento. Se o sentires numa brisa pelo caminho, tanto melhor. Se não (sempre entro em dúvida sobre qual senão usar), sinto muito... Ficas sem. Tá, tá, posso sim fazer o favor de beijar-te pessoalmente se for preciso. Sacrifício (muitamuitaironia.com).
         Mas então, o restinho da noite à minha espera estava um tesão. Límpida, fresca e com uma lua nova de cor bem simpática me saudando.
         Ruas praticamente vazias, me enchendo de maníaca alegria. Saí correndo a fazer meu próprio vento. Uma liberdade improvisada. Olhar para trás com expressão sapeca de quem vai brincar escondido e se divertir muito melhor sozinho. Eu podia saltitar, abrir bem os braços fingindo o melhor vôo (mesmo que viesse se parecer com o de uma garça), cantar alto, berrar, e não tinha nada, muito menos ninguém, com que se importar.
         Ah, essa escuridão cintilante, sedutora e aconchegante como uma bela capa de veludo. Parecia que, por instantes, eu tinha uma metade do mundo só pra mim, me preparando um espetáculo particular. E tinha uma linha se desbotando insinuante no horizonte já.
         Apressei-me, precisava chegar antes do sol. Enfim, cheguei lá em cima. Ainda me sobraram uns minutos para procurar o melhor lugar, o melhor ângulo e a melhor acústica para se escutar o sussurro do silêncio, o despertar do mágico. Lá adiante, o céu desnudando-se, revelando suas outras cores: branco, amarelo, azul... em tímidas camadas. Ao surgir uma mancha rosada foi que eu parei, acomodei-me: sentada na calçada, escorada num murinho, diante do portão de uma casa desconhecida. Agora era questão de segundos...
         Oh, lá vem ele, todo fazido, espiando sorrateiramente detrás de um prédio e se esgueirando lentamente entre este e um outro. Eis que se ergue esplêndido. O leste despertando só para mim. Assim, me senti ainda mais deusa (além de ser a da lua, da natureza, da caça).
         Que privilégio ter o dia nascendo sozinho, longe das garras da rotina, do átrio cotidiano, assediado pela indiferença do sono. Tive a honra de vê-lo nascido antes dos compromissos mundanos.
Logo, a cidade se levantou também, com seus fedores e a cara amassada de gente. Pena, ainda está tão lindo, posso ver ainda um quadro apreciável. Mas ok, segue adiante. E não é que encontro uma vista mais abrangente e bela. Pareceu-me uma típica estampa de camiseta de Istambul, só faltavam os minaretes.
Não queria ir embora, então resolvi explorar outras ruas. Nenhuma outra idéia teria sido melhor. Outras elevações, morros verdes ao longe. Do lado de cá, casas na mais graciosa arquitetura. Eu teria me perdido com prazer naquele lugar.
Eis que encontro um ventilador cabisbaixo. Senti pena de sua triste solidão, do seu abandono. Disse-lhe que não ficasse assim tão down. Cheguei a pensar em ir até ele, consolá-lo, tentar levantar seu astral. Não iria me escutar. Não, é preciso reerguer a cabeça por si mesmo, não importando se pareça algo impossível, tanto mais no caso dele. Além disso, me enxerguei nele. A tristeza na verdade era minha. Ninguém podia fazer algo por nós, só eu sabia.
Por ora, eu tenho que por à prova meu senso de direção e geografia, precisava reencontrar ruas conhecidas. Virei-me muitíssimo bem, obrigada. Posso já explorar o mundo, sozinha mesmo, que não faz mal nenhum.
Que imenso prazer nisso tudo! Vejo que minha essência não se perdeu. A menina destemida, curiosa, ainda vive em mim. Com todo seu fogo nos olhos ardendo vorazes.

02/11/2010

20110222

Mudar o roteiro

Depois vem uma espécie de estupor, o mesmo de sempre, e um turbilhão abstrato dentro da cabeça, começam a surgir aos borbotões idéias e imagens, que fluem e ficam vagando na minha mente. Os pensamentos se desestruturam e lutam para encontrar algum chão.
         É um amor esquizofrênico, se debatendo para ser substituído por adrenalina, aventura apaixonada e efêmera, e insistindo em se escrever. Parece que o guardei demais e ele quer se soltar de mim, mas já não tenho certeza se não sou eu quem está presa, perdida dentro uma loucura com sentimentos obscuros, secretamente situados entre a sombra e a minha mente.
         Chega, isso teve um começo e mesmo assim parece impossível vislumbrar um fim. É um romance que vive dentro de mim, numa guerra de armas químicas, espadas e poemas. E só acabará quando todas essas personagens morrerem comigo.
         Não, não queria desse jeito, não mais. Às vezes, é preciso uma revisão, editar, reescrever, essas coisas... Mudar alguns aspectos e ter um outro ponto de vista. É isso que tinha começado a fazer.
         Vim cometendo um assassinato em série, como se fosse um psicopata plenamente confiante de seus motivos, matando todos os que estavam dando problemas. Buscando um outro quebra-cabeça, talvez. Mas sobrou uma: eu. E estou tentando me situar numa nova história. Só que dessa vez sendo eu mesma. Precisava inventar um novo eu para (me) interpretar...

Cegamente

The Lovers, Magritte

        Foi deliberadamente à sua procura. Coisa que não devia fazer tão pública e descaradamente, perguntando a seus colegas onde encontrá-lo. Na porta da sala viu-o ao telefone. Estavam frente a frente. Ela encarou seu rosto sem poder concluir que expressão seria aquela vindo do seu semblante, sempre sério, se era de medo, agitação ou desagrado.
         Quando ela falou-lhe sobre um favor que havia pedido semanas atrás, ele encarou como um improviso, uma desculpa esfarrapada. O que não era. Tudo bem, era realmente esfarrapada. Afastou-se e não parava para conversar. Parecia até que queria evitar qualquer aproximação.
         Mas na verdade, ele estava improvisando. Tinha entrado em ação. Quando voltou, ela viu o pincel atômico em sua mão e entendeu tudo, mas não conseguia acreditar, ou queria, mas não sabia por quê. O corredor estava cheio e havia decidido apenas passar reto. Ele chamou-a e ela soube que tinha de voltar atrás, logo. Estava dentro da sala e convidou-a para entrar. O quadro branco com uns rabiscos caprichados de fórmulas e um circuito elétrico.
         Ela foi direto para o canto, atônita. Encarou-o com ar perplexo e escarnecendo por dentro daquela ousadia. Não queria que lhe fosse tão fácil, simples assim. Recuou um pouco e ele avançou. Impossível resistir a saltar-lhe ao pescoço. Uma loucura fugaz.
         Difícil rememorar toda a luxúria e desejo daquele beijo, furtivo e desesperado. Havia uma ânsia mútua, quase incontrolável, de manterem-se com os corpos colados. As mãos dele agarrando-a e percorrendo freneticamente suas curvas como se temessem lhe perder ou esquecer qualquer traço de sua silhueta.
         Acabou-se o tempo e a realidade se impôs sobre os dois, separando-os quase tão subitamente quanto haviam se encontrado. Ela volta para o corredor atulhado das pessoas de todas as mesmas noites, impregnadas de rotina. Mas tendo ela passado por cima disso e das convenções morais e éticas, podia muito bem sentir olhares acusadores, invejosos ou desconfiados lhe rondando, mesmo que não estivessem diante de seus olhos (estava fitando o chão ou qualquer ponto cego por onde andava).
         O prazer inebriante lhe deixava a salvo disso e da culpa, ela se embriagava no coquetel tóxico da paixão correndo em suas veias e ficava indiferente à presença das outras pessoas. E não tinha medo, nenhum medo. Tão pouco tinha controle sobre si mesma. Apenas se sentia ligeiramente obnóxia.

20110221

O tal do tempo do abacate

Uma vez li um texto sobre o tempo do abacate, aquele em que temos de esperar amadurecer, sobre rompimentos e as dores que vem junto. Uma metáfora sobre como lidar com certas situações, saber esperar. Aquelas de separação, as quais podemos considerar que cada uma é de um jeito, de tantos exemplos que temos, e a cada vez parece que é a primeira. Casos esses em que experiência não ajuda, no momento simplesmente nos esquecemos dela. E não há manual de instrução que possa ser consultado. O máximo que chega a ser lembrado com a experiência nessa hora é que "tudo passa". Mas aí pode piorar. Porque quem disse que queremos que passe? Passar é o mesmo que acabar. Mas quem disse que queremos que acabe?
Aí vem a dor, e ela é proporcional aos buracos das dores anteriores. Quanto maior a dificuldade em conviver com a frustração, maior ela é na próxima. A dor não vem sozinha, vem acompanhada das dores do passado. Vivem-se todas as dores do mundo de uma vez só. O que se pode fazer é esperar, e mais um pouco quando achar que já deu. Viver a situação inteiramente. Sublimar. Dizem que há tempo para tudo.
Não gosto de abacate e vivo sempre brigando e me estranhando com o tempo.
Sem dúvida, o brinde que se ganha nesses casos, com as dores do passado, é universal. Aos poucos quem me diz que EU quero que acabe, que tudo passe, é a razão, a lógica das conseqüências... A gente esmiúça todas as incompatibilidades a fim de convencer a si mesmo de que aquilo não iria dar certo e é melhor ser assim do que ter ficado assado. A coisa ruim de largar tudo na caçamba do tempo é a perda, não do valor, mas da qualidade daquilo que tivemos: perde-se o sabor, a cor, o brilho, se desgasta, roído por traças de rancor e com cheiro pungente. Aí, por vezes, a criatura aparece e até traz uns resquícios de saudades ou de desejos, ou uma reconciliação apenas diplomática, mas não é a mesma coisa, não adianta, não é mesmo?
Não há mais garantia de alguma durabilidade, somos meio que forçados a reconsiderar, ou pelo menos fingir que é descartável, para não sofrer o mesmo ou até mais.
Quando o tempo tem que passar, é para acabar mesmo, varrer tudo, porque os caquinhos cortam, machucam e deixam mais cicatrizes... Não costume guardar a expectativa frustrada das paixões, apenas a saudade vaga do que foi bonito, cheiroso ou engraçado. Alguns casos se encerram facilmente, mas um ou outro ainda pode ser difícil de embalar e colocar o carimbo ESGOTADO, talvez isso seja pela convivência imposta...
Mas o que realmente incomoda é desperdício de tempo, de palavras e tudo mais, para acabar, mas especialmente para esperar... O que dói é o que ainda não foi feito, o que não foi dito, o que fica passando na frente, mas não chega, o chove mas não molha.. Dói quando as pessoas abusam do teu tempo, alimentando expectativas que cada vez esgotam mais e vão te esvaziando por dentro... Não servimos para meio-termo ou promessas!
Às vezes dá vontade de ir embora, e antes quando uma pessoa parecia que já não tinha nada demais a deixar para trás, agora fica pairando viscosamente (porque sufoca) no ar que respira a possibilidade de tanta coisa que compartilhar maravilhosamente enquanto não vai... Mas as horas vão passando e o mundo ri dela, que não consegue ser ela mesma sem nada de real, sem quem lhe ateste que existe e que foi útil... Fica assim, perdida num mundo paralelo que não sai de sua mente e aonde ninguém vai vê-la. Isso pode corroer mais que ácido sulfúrico e soda cáustica juntos. Cuidado!
Um tipo de linda mulher que se sente assim teima em viver um romance de capa e espada, imagina-se na torre esperando o príncipe encantado. Insiste em viver nos contos de fadas enquanto a vida lhe mostra outros príncipes que se parecem a sapos, mas que são cheios de amor pra dar e receber.... Enquanto espera o ideal não vive o real. Se incomodar o desperdício de tempo é porque só quer resultados. O melhor da festa é se preparar pra ir, escolher a roupa, tomar o banho, arrumar o cabelo, imaginar quem vai estar lá, depois chegar lá e dançar, conversar e no dia seguinte lembrar de tudo isso e rir... Então não há desperdício, tudo faz parte...
           É preciso curtir a vida, relaxar, e não esperar resultados. Não depender de ninguém para ser feliz. Aproveitar cada momento.

por Cíntia Timóteo, com Sônia R. Porto Machado
O texto referido você encontra aqui: http://soniaporto.zip.net/arch2007-02-11_2007-02-17.html

20110218

Dormindo no ponto

            Súbita e inevitavelmente, sou atacada por um incontrolável sono, várias vezes ao longo de um dia. Daí eu ser aparentemente tão desligada para alguns. Não que eu me importe com o que outros pensam. Só minha consciência é que vale. O lamentável disso é perder muita coisa dos meus pensamentos.
            Cronicamente, fico tal uma narcoléptica. E a causa disso é uma crise na pequena indústria Orexin(a) S.A., que está enfrentando problemas na cadeia produtiva, cujas células se encontram na distante cidadezinha de Hipotálamo, na Ilha da Mente.
            Não estão conseguindo produzir hipocretina em quantidade (ou qualidade) suficiente para atender à demanda da mesma, que é uma importante proteína (e cretina mesmo).
            Há relatos de clientes que muitas vezes são acometidos de cataplexia, causada pela contaminação do produto, que é a súbita perda de força muscular (pode ser no joelho, no pescoço, no rosto...). Geralmente acontece no meio de alguma situação emocional, como euforia, tristeza, constrangimento e... até mesmo orgasmo! (bah, já pensou?). Pode provocar queda e mesmo consciente, a pessoa não consegue falar ou se mexer. Coitados.
            Isso é sério. É injusto colocar pessoas inocentes diante desse perigo, ainda mais se não podem saber a causa. Vamos evitar novas fraudes e acidentes como esse. Quem protesta comigo?

20110215

Sobre beijos

Le Basier de l'Hôtel Ville. Robert Doisneau, 1950.

Ah, beijos! Não são algo em que pensar, escrever sobre ou estudar. Alguns filósofos devem ter pensado, um médica francesa já fez uma tese de doutorado sobre seus efeitos, mais de duzentas páginas, e até Darwin pensou sobre suas origens, acreditando que o beijo era uma evolução das mordidas que os macacos davam no parceiro nos ritos pré-sexuais. Sei lá. Devem é serem muito bem exercidos, isso sim. É o que acho, insaciável que sou. Sendo assim é algo inesquecível e extremamente saudável. Estimulam músculos faciais, aumentam os batimentos cardíacos, promovem a liberação de serotonina e ocitocina, queimam algumas calorias... a lista de benefícios/efeitos colaterais é longa, a francesinha já a fez por mim. Além disso, rendem boas lembranças, histórias hilárias, versos fogosos e belas imagens (Doisneau e Eisenstaedt sabiam muito bem disso).

Há alguns anos soube da existência de um dia internacional do beijo, qualquer um já ouviu falar: 13 de abril. Não faço a mínima idéia de como surgiu data tão burlesca, parece que foi em 1982. No entanto, todo ano tinha alguma referência, estar enamorada de alguém que faz aniversário nesse dia, um acontecimento ou um atraso que me fazia lembrar tal data e lamentar ou não se ele foi devidamente celebrado, mesmo que inconscientemente.
Na última vez, esqueci completamente. A data, mas sem ficar a imaginação vazia de afagos, beijos franceses, etc durante o dia. Vi apenas de noite, no site do jornal ZH: era o tal 13 de abril. Mencionei o esquecimento num e-mail a uma amiga, e só, já era tarde. Tudo o que tinha ultimamente era um daqueles trovadores bem polenteiro na escola, sempre com uns beijinhos de trave aqui e ali. No chove e não molha. Haja paciência. E quem nunca passou por isso?

Mas no dia seguinte veio um beijo, atrasado, e sem desculpas... Um gol no centro.
Só que, sei lá.. foi tanto drible que ofuscou o mais importante.
A estratégia usada.. de se aproximar de modo inevitável fazendo entrar em contato de corpo inteiro, sentir a excitação na pele, arfar e olhar com louca cobiça para os lábios na minha frente e não poder devorar com a real avidez.. um caminho tão longo que o beijo que era pra ontem se despedaça enquanto anda.
Ah, faça-me o favor, faisquinhas elétricas é nada.. considerando que gosto de fogo e sou muito dada a deixar que um incêndio aconteça.
Beijo é o ato mais sensual que duas pessoas podem apreciar e fazer em total sintonia, um daqueles que podem te deixar de pernas bambas, sem fôlego, inebriado e com um sorrisinho besta ao lembrar. Pelo menos pra mim é assim. Isso pode ocorrer uma única vez na adolescência ou pode se ter beijos únicos ao longo da vida, mas ficam igualmente na memória para sempre.

Times Square, Nova York. Alfred Eisenstaedt, 1945.

Eis que porque o beijo, em si, merece ser cultivado a qualquer momento, das mais variadas formas, até mesmo em texto, independentemente de datas, eventos ou ocasiões. Então, sugiro que você beije muito, o namorado(a), o amigo colorido e todos os que forem essenciais em sua vida. Dê uma chance para aquele que te trovou na festa, surpreenda aquela garota em quem você tem andado de olho. Tasque um sempre quando estiver apaixonado, muito feliz ou extremamente necessitado, haha...
Isso na minha humilde opinião.

p.s.: a história de cada foto é muito interessante, de fotógrafos que muito aprecio (o primeiro francês e o segundo um prussiano), por isso escolhi essas, e são muito famosas (só uma curiosidade: ambos os casais eram desconhecidos entre si, a diferença é que a segunda foto foi de um ato espontâneo).

Um beijo a todos!

20110214

Sempre mademoiseille devassa

Uma despedida?
Sim, quero me despedir.
Fazer um despedido.
Despedir-me de tudo,
De todos.
Despedida de solteira.
Por que não?
Afastar a dissoluta,
Só por um bom tempo.
Até parece que não vai fazer diferença.
Só por enquanto,
Poderia me entristecer um pouco, talvez.
O certo é que outras e novas saudades
Virão ainda mais intensas.
Chega.
Beijinho na mão,
É o que eu quero agora.
Como em séc...
[foi nesse instante que tu chegastes,
Beijando suavemente minha mão...
Parecia ter lido meu pensamento assim que pensei.
Eras aquele que poderia me levar embora.
Logo, logo me apaixonaria.


E essa brisa já passou, não volta mais...
Outras estão por vir, como sempre.

20110211

Doce dia de novembro, 2009

ai, ai... que sentimentos bons estavam a me inflar a alma!
A primeira coisa que vi naquele dia cinzento, logo pela manhã, foi um arco-íris, lindo, que nunca tive tão perto de mim... Embora eu tivesse que seguir andando de costas para ele, aquela visão me acalmou, bastou pra me deixar alegre.
O dia tinha sido cheio de sensações e sentimentos diversos, mas prevaleceram os risos e sorrisos que me mantêm... pude voltar pra casa na companhia de um pôr-do-sol colorido pelos meus óculos roxos.

A noite me veio com uma maravilhosa surpresa, que tinha me provado que as pessoas mudam, que elas sempre podem nos surpreender, voltar a nos alegrar, apesar do passado... que elas percebem o quão precioso é o pouco tempo de que dispomos para aproveitar o que amamos ou quem nos ama, para compartilhar o melhor da vida. E saber que ainda há tempo para mudar é um privilégio para poucos.

E tinha ficado feliz por ter tido com quem compartilhar a percepção do essencial.
Coisa boa ter um alguém a quem podemos exteriorizar nossas inspirações e nosso estado de espírito, não é mesmo?

(sim, há também a lembrança implícita do filme Doce Novembro, muito conveniente, uma vez que em alguns casos não basta apenas mudar e as pessoas podem partir a qualquer momento, sem volta. Reviravoltas que, no entanto, valeram a pena...)

O cheiro de capim-limão

Queria me amar e falava em fazermos amor. Mas não tinha por que fazê-lo, eu o tinha de sobra. Amor pra emprestar, dar e vender, se quiser. Bem pelo contrário, precisava extravasar o meu, me aliviar desse que está preso em mim (ou me livrar desse que me prende).
Nele parecia que o amor faltava. Desgastou-se com o tempo, foi desperdiçado ou então nunca existiu. Mas precisava dele. Ele lhe faz bem, alimenta seu casamento, não importa se vem de dentro ou de fora.

Enquanto se mantém estagnado em sua rotina consolidada e preso no seu mundinho de conveniências, eu simplesmente passava, intermitentemente, por sua vida. Constantemente à espreita e quando me aproximava, aspirava meu perfume de liberdade, meu cheiro fantasiado de libertina. Meu aroma de capim-limão, que nunca esquece. Essência da nossa loucura?

E eu, quase libertina que me tornei, te abrigava em meu calor, abraços frenéticos, meus beijos, e me envolvia nos braços desse homem insípido e inodoro que és.

20110205

Abalos internos, de 1 a 3 na escala Richter

Manhã de segunda insípida, fétida e pálida.

Desprovida de alma.

Com olheiras profundas e irremediáveis.

E não há para onde fugir.

Não de medo, mas de algo que ainda não tem nome.

Tornei-me alguém que se diz eu, mas não sou eu.

Vou me procurar.

Devo ter me escondido em algum lugar...

Aqui dentro mesmo.

Pare de querer contrair o tempo!

Isso só faz expandir ainda mais essa agonia,

Tal que não tem começo definido

E não se sabe aonde pode me levar.

Se me descuido um instante, vem essa espécie de abalo sísmico
Tirar-me meu frágil equilíbrio fingido, súbita e sorrateiramente.
Com uma dor asfixiante e narcótica.

Há certo desespero que estou tentando esconder dos outros.
Nem eu suportaria vê-lo por muito tempo.
Mas, mesmo que eu feche os olhos,
Ele continua lá,
Gritando sob meu silêncio.

Em algum lugar e em lugar nenhum

Será?Será que tem um lugar que vai existir para mim se, e quando, eu chegar nele?

Tenho o sentimento de que ele não vai estar mais lá quando eu chegar.

Aí vou perceber que vivi sem me mover um milímetro sequer nesse mundo que fui tal uma pedra...

É um pouco como se lembrar do que disseram à Alice uma vez: que é preciso correr muito para se manter no mesmo lugar.

Essa perspectiva me assombra quase todos os dias.

Porque eu não terei tido minha própria felicidade, a liberdade que traria ar aos meus ansiosos pulmões.

Chega, quero dormir.

Procurar o caminho na escuridão do sono, porque lá não há.

Não tem lugar para chegar nem de onde partir, apenas se está e não é, se é e não se está.

Pânico ensolarado

Um vento desvairado que me deixou ainda mais louca.
Um dia muito bonito, mas desesperado.
Contagiei-o com meu desespero.
O pânico do nada em mim.
Os minutos se passando sem sentido.
E eu desprovida de bom sentimento.
Perdida na verdade.
Mentira.
Constrangida e incrustada de culpa, isso sim.
Podia morrer de vergonha.
E fiquei perturbada com isso, completamente.
Logo me dói, agudo e súbito.
A vida apenas sintomática pulsando aqui.
Sabia que era um nada completo.
Só não sei se há algo que tornará tudo assim ou que vá virar um passado à parte...

Insustentável peso de não ser

Estou morta. Sinto-me morta.

Morri há algum tempo. Ou será que já nasci morta?

Morta antecipadamente de desgosto, de culpa, de inércia estocada.

Quem sabe?

Não sei se estou soterrada sob um peso de inexistência ou se estou vagando errante pelo vazio, leve e volátil, impregnada no vácuo.

De mim emana um certo éter que gela minha vida.

Não sei mais nada. Há muito me perdi de mim.

Preciso de algo que me prenda ao chão.

E que assim eu possa caminhar, deixar minhas pegadas, não mais ficar apenas olhando este estranho mundo de cima.

Tenho que fazer parte dele, e assim viver e vivê-lo...

Nem sei se consigo ou mesmo se quero. Eu não poderia tê-lo apenas aqui dentro...

Acho que não vencerei a corrida contra o tempo. Ele corre sobre uma linha, e eu não.

20110202

Atravessada


E por mais que eu continuasse

a querer enxergar o desejo

transparente em seus olhos,

receber o impacto,

sentia que ele me transpassava.

Atingi não o outro lado da transparência,

mas ela própria, passei através

e dentro dela me perdi.


E junto comigo, se perderam as perguntas.

20110130

Amantes num espelho

E quando, no auge de sua aventura voluptuosa, o prazer lhe invade e percorre o seu corpo de vez e estás prestes a entrar em erupção, ela se divide entre a vontade de captar o momento, não fechar os olhos, e seu instinto de fechá-los e se perder.

Não que ela negue a beleza visual do ato ou tenha medo de se prender a uma lembrança do que vê. Apenas não quer se apegar a esse quadro limitado que é seu amante nu junto de seu corpo, com o rosto tomado de um jubiloso êxtase.

Tem medo da nostalgia que isso pode lhe causar quando essa paixão já tiver se perdido nas brumas do tempo e da inevitável separação. Prefere mergulhar no escuro, se entregar ao infinito que lhe traz imaginação. Atrai-lhe mais a liberdade de ter toda a beleza do amor presa em nada além de uma sensação pura e imaculável de suas paixões.

Olha os dois no espelho: é tudo o que ela sente por ele, preso naquele exato momento. E tão efêmero quanto o mesmo reflexo.

agosto de 2010, o impacto do 19

19 anos já! Isso mesmo?! A um passo dos 20 e os 25 estão logo ali, na virada da esquina. E esse mistério, essa incerteza absoluta quanto ao que encontrarei no outro lado, se é que chegarei lá, me aterroriza um pouco.

Sim, numericamente se passaram 19 anos, 228 meses, mais de 990 semanas, e uma conta imensurável de dias somados e subtraídos, da minha vida. 18 invernos e uma primavera se passaram. Tendo hibernado grande parte de minha infância, a perdi e não gostei muito de como a encontrei nos escombros da minha memória. Está destruída, deformaram-na e em vão tento restaurar os fragmentos que restaram e tirar-lhe as incrustações.

Para os outros, tudo passa rápido, enquanto se olha para trás. Já para mim, os anos e o tempo passam dolorosamente inconsistentes. Fugazes, mas também inertes. A vida escorre viscosa e turva pelas minhas mãos.

Sou teoricamente jovem, mas há muito me sinto velha. Como quem nunca viveu e já não tem mais tanto tempo para isso. A juventude que vêem em mim é superficial e frágil. Minha jovialidade, me é difícil retê-la quando a uso de forma a encobrir minhas tristezas e dúvidas perante os outros, tão volátil ela é.

Queima fácil qualquer faísca que me venham a atiçar. Daí inflama e incendeia tudo. Depois, dos momentos e das pessoas, só vejo diante de mim suas cinzas e fumaça, que embaralha minha visão. E eu, fico como que em carne viva, tamanha minha dor, estuporada. Assim, qualquer coisa que eu tente tocar ou qualquer um que venha encostar-se a mim, me machuca. Umas feridas que nunca se fecham nem eu consigo tratá-las.

Sou um pouco de plasma, íons superaquecidos em sinapses descontroladas nas áreas emotivas do meu cérebro. E sou feita de imagens, reflexos e lembranças que são guardadas por cada pessoa que me conheça à sua própria maneira e conseqüência.

Dentro de mim só há o vazio contido numa caixinha feita de pesadelos lúcidos, na maioria, um pouco de tristeza, indignação, uma nostalgia irreal e o vento circulando louco. Ou será que sou eu que estou presa dentro dela, encerrada sob solidão, más lembranças, decepções e frustrações não sublimadas? Atormentada por uma saudade de felicidade e amor pueris que já não tenho certeza se em algum momento existiram. De qualquer maneira, não consigo abri-la, para jogar fora esses ressentimentos irracionais ou me libertar.

Eu tinha inventado, sem perceber, um amor para me distrair. Encontrei-o no oceano de um olhar no qual eu mergulhei e em cuja imensidão eu me perdi. E nas profundezas de seus mistérios era engolida e consumida a cada dia mais. Quase me afoguei.

Sentia as paredes dessa caixinha serem serradas. Não sei se por mim ou outras pessoas. Só sei que dói: é meu coração. Nós na garganta me impedem de falar, me trancam a respiração nessas horas.

Sonho em abrir os olhos e poder enxergar o céu claro, azul límpido, ou melhor ainda, colorido como uma aurora e com arco-íris... Todos os dias, pelo menos dentro de mim. Quero um horizonte à minha frente para ultrapassar, por mim mesma e poder voar pousando onde quiser. Não sirvo pra ser peixe!