20110218

Dormindo no ponto

            Súbita e inevitavelmente, sou atacada por um incontrolável sono, várias vezes ao longo de um dia. Daí eu ser aparentemente tão desligada para alguns. Não que eu me importe com o que outros pensam. Só minha consciência é que vale. O lamentável disso é perder muita coisa dos meus pensamentos.
            Cronicamente, fico tal uma narcoléptica. E a causa disso é uma crise na pequena indústria Orexin(a) S.A., que está enfrentando problemas na cadeia produtiva, cujas células se encontram na distante cidadezinha de Hipotálamo, na Ilha da Mente.
            Não estão conseguindo produzir hipocretina em quantidade (ou qualidade) suficiente para atender à demanda da mesma, que é uma importante proteína (e cretina mesmo).
            Há relatos de clientes que muitas vezes são acometidos de cataplexia, causada pela contaminação do produto, que é a súbita perda de força muscular (pode ser no joelho, no pescoço, no rosto...). Geralmente acontece no meio de alguma situação emocional, como euforia, tristeza, constrangimento e... até mesmo orgasmo! (bah, já pensou?). Pode provocar queda e mesmo consciente, a pessoa não consegue falar ou se mexer. Coitados.
            Isso é sério. É injusto colocar pessoas inocentes diante desse perigo, ainda mais se não podem saber a causa. Vamos evitar novas fraudes e acidentes como esse. Quem protesta comigo?

20110215

Sobre beijos

Le Basier de l'Hôtel Ville. Robert Doisneau, 1950.

Ah, beijos! Não são algo em que pensar, escrever sobre ou estudar. Alguns filósofos devem ter pensado, um médica francesa já fez uma tese de doutorado sobre seus efeitos, mais de duzentas páginas, e até Darwin pensou sobre suas origens, acreditando que o beijo era uma evolução das mordidas que os macacos davam no parceiro nos ritos pré-sexuais. Sei lá. Devem é serem muito bem exercidos, isso sim. É o que acho, insaciável que sou. Sendo assim é algo inesquecível e extremamente saudável. Estimulam músculos faciais, aumentam os batimentos cardíacos, promovem a liberação de serotonina e ocitocina, queimam algumas calorias... a lista de benefícios/efeitos colaterais é longa, a francesinha já a fez por mim. Além disso, rendem boas lembranças, histórias hilárias, versos fogosos e belas imagens (Doisneau e Eisenstaedt sabiam muito bem disso).

Há alguns anos soube da existência de um dia internacional do beijo, qualquer um já ouviu falar: 13 de abril. Não faço a mínima idéia de como surgiu data tão burlesca, parece que foi em 1982. No entanto, todo ano tinha alguma referência, estar enamorada de alguém que faz aniversário nesse dia, um acontecimento ou um atraso que me fazia lembrar tal data e lamentar ou não se ele foi devidamente celebrado, mesmo que inconscientemente.
Na última vez, esqueci completamente. A data, mas sem ficar a imaginação vazia de afagos, beijos franceses, etc durante o dia. Vi apenas de noite, no site do jornal ZH: era o tal 13 de abril. Mencionei o esquecimento num e-mail a uma amiga, e só, já era tarde. Tudo o que tinha ultimamente era um daqueles trovadores bem polenteiro na escola, sempre com uns beijinhos de trave aqui e ali. No chove e não molha. Haja paciência. E quem nunca passou por isso?

Mas no dia seguinte veio um beijo, atrasado, e sem desculpas... Um gol no centro.
Só que, sei lá.. foi tanto drible que ofuscou o mais importante.
A estratégia usada.. de se aproximar de modo inevitável fazendo entrar em contato de corpo inteiro, sentir a excitação na pele, arfar e olhar com louca cobiça para os lábios na minha frente e não poder devorar com a real avidez.. um caminho tão longo que o beijo que era pra ontem se despedaça enquanto anda.
Ah, faça-me o favor, faisquinhas elétricas é nada.. considerando que gosto de fogo e sou muito dada a deixar que um incêndio aconteça.
Beijo é o ato mais sensual que duas pessoas podem apreciar e fazer em total sintonia, um daqueles que podem te deixar de pernas bambas, sem fôlego, inebriado e com um sorrisinho besta ao lembrar. Pelo menos pra mim é assim. Isso pode ocorrer uma única vez na adolescência ou pode se ter beijos únicos ao longo da vida, mas ficam igualmente na memória para sempre.

Times Square, Nova York. Alfred Eisenstaedt, 1945.

Eis que porque o beijo, em si, merece ser cultivado a qualquer momento, das mais variadas formas, até mesmo em texto, independentemente de datas, eventos ou ocasiões. Então, sugiro que você beije muito, o namorado(a), o amigo colorido e todos os que forem essenciais em sua vida. Dê uma chance para aquele que te trovou na festa, surpreenda aquela garota em quem você tem andado de olho. Tasque um sempre quando estiver apaixonado, muito feliz ou extremamente necessitado, haha...
Isso na minha humilde opinião.

p.s.: a história de cada foto é muito interessante, de fotógrafos que muito aprecio (o primeiro francês e o segundo um prussiano), por isso escolhi essas, e são muito famosas (só uma curiosidade: ambos os casais eram desconhecidos entre si, a diferença é que a segunda foto foi de um ato espontâneo).

Um beijo a todos!

20110214

Sempre mademoiseille devassa

Uma despedida?
Sim, quero me despedir.
Fazer um despedido.
Despedir-me de tudo,
De todos.
Despedida de solteira.
Por que não?
Afastar a dissoluta,
Só por um bom tempo.
Até parece que não vai fazer diferença.
Só por enquanto,
Poderia me entristecer um pouco, talvez.
O certo é que outras e novas saudades
Virão ainda mais intensas.
Chega.
Beijinho na mão,
É o que eu quero agora.
Como em séc...
[foi nesse instante que tu chegastes,
Beijando suavemente minha mão...
Parecia ter lido meu pensamento assim que pensei.
Eras aquele que poderia me levar embora.
Logo, logo me apaixonaria.


E essa brisa já passou, não volta mais...
Outras estão por vir, como sempre.

20110211

Doce dia de novembro, 2009

ai, ai... que sentimentos bons estavam a me inflar a alma!
A primeira coisa que vi naquele dia cinzento, logo pela manhã, foi um arco-íris, lindo, que nunca tive tão perto de mim... Embora eu tivesse que seguir andando de costas para ele, aquela visão me acalmou, bastou pra me deixar alegre.
O dia tinha sido cheio de sensações e sentimentos diversos, mas prevaleceram os risos e sorrisos que me mantêm... pude voltar pra casa na companhia de um pôr-do-sol colorido pelos meus óculos roxos.

A noite me veio com uma maravilhosa surpresa, que tinha me provado que as pessoas mudam, que elas sempre podem nos surpreender, voltar a nos alegrar, apesar do passado... que elas percebem o quão precioso é o pouco tempo de que dispomos para aproveitar o que amamos ou quem nos ama, para compartilhar o melhor da vida. E saber que ainda há tempo para mudar é um privilégio para poucos.

E tinha ficado feliz por ter tido com quem compartilhar a percepção do essencial.
Coisa boa ter um alguém a quem podemos exteriorizar nossas inspirações e nosso estado de espírito, não é mesmo?

(sim, há também a lembrança implícita do filme Doce Novembro, muito conveniente, uma vez que em alguns casos não basta apenas mudar e as pessoas podem partir a qualquer momento, sem volta. Reviravoltas que, no entanto, valeram a pena...)

O cheiro de capim-limão

Queria me amar e falava em fazermos amor. Mas não tinha por que fazê-lo, eu o tinha de sobra. Amor pra emprestar, dar e vender, se quiser. Bem pelo contrário, precisava extravasar o meu, me aliviar desse que está preso em mim (ou me livrar desse que me prende).
Nele parecia que o amor faltava. Desgastou-se com o tempo, foi desperdiçado ou então nunca existiu. Mas precisava dele. Ele lhe faz bem, alimenta seu casamento, não importa se vem de dentro ou de fora.

Enquanto se mantém estagnado em sua rotina consolidada e preso no seu mundinho de conveniências, eu simplesmente passava, intermitentemente, por sua vida. Constantemente à espreita e quando me aproximava, aspirava meu perfume de liberdade, meu cheiro fantasiado de libertina. Meu aroma de capim-limão, que nunca esquece. Essência da nossa loucura?

E eu, quase libertina que me tornei, te abrigava em meu calor, abraços frenéticos, meus beijos, e me envolvia nos braços desse homem insípido e inodoro que és.

20110205

Abalos internos, de 1 a 3 na escala Richter

Manhã de segunda insípida, fétida e pálida.

Desprovida de alma.

Com olheiras profundas e irremediáveis.

E não há para onde fugir.

Não de medo, mas de algo que ainda não tem nome.

Tornei-me alguém que se diz eu, mas não sou eu.

Vou me procurar.

Devo ter me escondido em algum lugar...

Aqui dentro mesmo.

Pare de querer contrair o tempo!

Isso só faz expandir ainda mais essa agonia,

Tal que não tem começo definido

E não se sabe aonde pode me levar.

Se me descuido um instante, vem essa espécie de abalo sísmico
Tirar-me meu frágil equilíbrio fingido, súbita e sorrateiramente.
Com uma dor asfixiante e narcótica.

Há certo desespero que estou tentando esconder dos outros.
Nem eu suportaria vê-lo por muito tempo.
Mas, mesmo que eu feche os olhos,
Ele continua lá,
Gritando sob meu silêncio.

Em algum lugar e em lugar nenhum

Será?Será que tem um lugar que vai existir para mim se, e quando, eu chegar nele?

Tenho o sentimento de que ele não vai estar mais lá quando eu chegar.

Aí vou perceber que vivi sem me mover um milímetro sequer nesse mundo que fui tal uma pedra...

É um pouco como se lembrar do que disseram à Alice uma vez: que é preciso correr muito para se manter no mesmo lugar.

Essa perspectiva me assombra quase todos os dias.

Porque eu não terei tido minha própria felicidade, a liberdade que traria ar aos meus ansiosos pulmões.

Chega, quero dormir.

Procurar o caminho na escuridão do sono, porque lá não há.

Não tem lugar para chegar nem de onde partir, apenas se está e não é, se é e não se está.

Pânico ensolarado

Um vento desvairado que me deixou ainda mais louca.
Um dia muito bonito, mas desesperado.
Contagiei-o com meu desespero.
O pânico do nada em mim.
Os minutos se passando sem sentido.
E eu desprovida de bom sentimento.
Perdida na verdade.
Mentira.
Constrangida e incrustada de culpa, isso sim.
Podia morrer de vergonha.
E fiquei perturbada com isso, completamente.
Logo me dói, agudo e súbito.
A vida apenas sintomática pulsando aqui.
Sabia que era um nada completo.
Só não sei se há algo que tornará tudo assim ou que vá virar um passado à parte...

Insustentável peso de não ser

Estou morta. Sinto-me morta.

Morri há algum tempo. Ou será que já nasci morta?

Morta antecipadamente de desgosto, de culpa, de inércia estocada.

Quem sabe?

Não sei se estou soterrada sob um peso de inexistência ou se estou vagando errante pelo vazio, leve e volátil, impregnada no vácuo.

De mim emana um certo éter que gela minha vida.

Não sei mais nada. Há muito me perdi de mim.

Preciso de algo que me prenda ao chão.

E que assim eu possa caminhar, deixar minhas pegadas, não mais ficar apenas olhando este estranho mundo de cima.

Tenho que fazer parte dele, e assim viver e vivê-lo...

Nem sei se consigo ou mesmo se quero. Eu não poderia tê-lo apenas aqui dentro...

Acho que não vencerei a corrida contra o tempo. Ele corre sobre uma linha, e eu não.

20110202

Atravessada


E por mais que eu continuasse

a querer enxergar o desejo

transparente em seus olhos,

receber o impacto,

sentia que ele me transpassava.

Atingi não o outro lado da transparência,

mas ela própria, passei através

e dentro dela me perdi.


E junto comigo, se perderam as perguntas.

20110130

Amantes num espelho

E quando, no auge de sua aventura voluptuosa, o prazer lhe invade e percorre o seu corpo de vez e estás prestes a entrar em erupção, ela se divide entre a vontade de captar o momento, não fechar os olhos, e seu instinto de fechá-los e se perder.

Não que ela negue a beleza visual do ato ou tenha medo de se prender a uma lembrança do que vê. Apenas não quer se apegar a esse quadro limitado que é seu amante nu junto de seu corpo, com o rosto tomado de um jubiloso êxtase.

Tem medo da nostalgia que isso pode lhe causar quando essa paixão já tiver se perdido nas brumas do tempo e da inevitável separação. Prefere mergulhar no escuro, se entregar ao infinito que lhe traz imaginação. Atrai-lhe mais a liberdade de ter toda a beleza do amor presa em nada além de uma sensação pura e imaculável de suas paixões.

Olha os dois no espelho: é tudo o que ela sente por ele, preso naquele exato momento. E tão efêmero quanto o mesmo reflexo.

agosto de 2010, o impacto do 19

19 anos já! Isso mesmo?! A um passo dos 20 e os 25 estão logo ali, na virada da esquina. E esse mistério, essa incerteza absoluta quanto ao que encontrarei no outro lado, se é que chegarei lá, me aterroriza um pouco.

Sim, numericamente se passaram 19 anos, 228 meses, mais de 990 semanas, e uma conta imensurável de dias somados e subtraídos, da minha vida. 18 invernos e uma primavera se passaram. Tendo hibernado grande parte de minha infância, a perdi e não gostei muito de como a encontrei nos escombros da minha memória. Está destruída, deformaram-na e em vão tento restaurar os fragmentos que restaram e tirar-lhe as incrustações.

Para os outros, tudo passa rápido, enquanto se olha para trás. Já para mim, os anos e o tempo passam dolorosamente inconsistentes. Fugazes, mas também inertes. A vida escorre viscosa e turva pelas minhas mãos.

Sou teoricamente jovem, mas há muito me sinto velha. Como quem nunca viveu e já não tem mais tanto tempo para isso. A juventude que vêem em mim é superficial e frágil. Minha jovialidade, me é difícil retê-la quando a uso de forma a encobrir minhas tristezas e dúvidas perante os outros, tão volátil ela é.

Queima fácil qualquer faísca que me venham a atiçar. Daí inflama e incendeia tudo. Depois, dos momentos e das pessoas, só vejo diante de mim suas cinzas e fumaça, que embaralha minha visão. E eu, fico como que em carne viva, tamanha minha dor, estuporada. Assim, qualquer coisa que eu tente tocar ou qualquer um que venha encostar-se a mim, me machuca. Umas feridas que nunca se fecham nem eu consigo tratá-las.

Sou um pouco de plasma, íons superaquecidos em sinapses descontroladas nas áreas emotivas do meu cérebro. E sou feita de imagens, reflexos e lembranças que são guardadas por cada pessoa que me conheça à sua própria maneira e conseqüência.

Dentro de mim só há o vazio contido numa caixinha feita de pesadelos lúcidos, na maioria, um pouco de tristeza, indignação, uma nostalgia irreal e o vento circulando louco. Ou será que sou eu que estou presa dentro dela, encerrada sob solidão, más lembranças, decepções e frustrações não sublimadas? Atormentada por uma saudade de felicidade e amor pueris que já não tenho certeza se em algum momento existiram. De qualquer maneira, não consigo abri-la, para jogar fora esses ressentimentos irracionais ou me libertar.

Eu tinha inventado, sem perceber, um amor para me distrair. Encontrei-o no oceano de um olhar no qual eu mergulhei e em cuja imensidão eu me perdi. E nas profundezas de seus mistérios era engolida e consumida a cada dia mais. Quase me afoguei.

Sentia as paredes dessa caixinha serem serradas. Não sei se por mim ou outras pessoas. Só sei que dói: é meu coração. Nós na garganta me impedem de falar, me trancam a respiração nessas horas.

Sonho em abrir os olhos e poder enxergar o céu claro, azul límpido, ou melhor ainda, colorido como uma aurora e com arco-íris... Todos os dias, pelo menos dentro de mim. Quero um horizonte à minha frente para ultrapassar, por mim mesma e poder voar pousando onde quiser. Não sirvo pra ser peixe!

20110123

Insônia primaveril

Chuva de primavera,
Noite insone.
Frio e calor disputando meu corpo.
A inquietude do vazio me rondando...
Um delírio colorido,
Como se fosse florido.
Ou não.

20110121

A visão de outro nunca será tão boa quanto a sua de si mesmo.
Viva e morra com ela. Porque no final é tudo o que você tem.
Se perdê-la, acaba perdendo a si mesmo e a tudo mais.

Georgia O'Keefe



Essas palavras me marcaram muito quando vi o filme que leva seu nome. Eu nunca tinha ouvido falar dela antes, encontrei o DVD por acaso e adorei. Essa Georgia foi uma pintora norte-americana, falecida em 1986. Ela foi casada com o fotógrafo Alfred Stieglitz, outra surpresa para mim. O amor deles parece lindo, é espirituoso, intenso, mas... Enfim, só sei que a admiro muito mais, pela sua feminilidade e sua força, também por sua ousadia. Vale a pena conhecê-la...
    
   (esta é pra ti, Mila...)
     By Yousouf Karch