20100925

Puzzle interno

Não ouço direito, dispenso de antemão o que não quero ouvir, a mentira me cansa.
Não aprendi a falar, o silêncio me escuta e cala.



Só sei ler e escrever.
Meus olhos me sussurram o que quero, uma realidade reinventada.
Meus dedos gritam o que é preciso calar, sentimentos que tentam mentir verdades.
Minha mente se distrai brincando de puzzle, para não olhar a memória profanada e despedaçada.
Tem medo do que vai restar.

Sem sair do chão

     Aquela cena, que se repetia, a cada vez mais dramática, a irritava. Naquela noite pareceu que não suportaria mais nenhuma outra. E desolada, já estava chorando as tão previsíveis, e até ensaiadas, lágrimas, quando, então, parou e, sem perceber, improvisou.

     Por instantes sacudiu furiosamente seus braços para cima e para baixo atrás de si. Logo, logo acabou encontrando uma moral para seu ato. Eram a ansiedade e o desespero por dar movimento ao seu mais puro desejo, que até aí lutava para sair da sua falsa subconsciência: O de bater as asas escondidas e alçar vôos, ter sua liberdade.

     Uma mímica tão simples e clara, como um céu azul, mas que só ela podia ver e interpretar. Não havia ninguém presente para adivinhá-la. E, mesmo que tivesse isso não seria possível.

     Resignou-se, e não querendo mais que alguma tristeza escorresse pelo seu rosto, voltou-se para o chuveiro, para o banho insone interrompido. Para que este vertesse sobre si alguns derradeiros minutos de calma e prazerosa solidão. Mas desceram somente relutantes e árduas gotas que em nada poderiam consolar. Pois ele também se magoava e ficava entediado com aquilo. Também o chuveiro havia pensado em chorar. Pelo menos não estava sozinha no seu sofrimento, as coisas tinham empatia por ela.

Ficou, enfim, com o dilema de seu pássaro interior...

     Como voar com suas asas cortadas, ou que talvez nunca existissem, tendo suprimentos ao alcance somente em sua gaiola, que a prende no nada? E o que mantinha seu instinto e sua resistência a existir simplesmente naquelas circunstâncias?

    Ah, sim, são frestas que a fazem enxergar um pouco do mundo lá fora. E deixam escancarado um abundante ar livre para inflar-lhe a alma. Ao se lembrar das possibilidades que iam se inventando ao longo de seus dias, acaba tentando submeter-se a uma paciência e esperança, desconhecidas, para a regeneração de si mesma.

     Sente uma necessidade louca de fugir, para bem longe, onde nem o céu seja limite. Ir além. E para sobreviver, precisa desenhar um horizonte, enxergar uma linha para ultrapassar e saber que depois dessa, outra pode surgir, sempre. Quer entregar-se ao vento que lhe ronda louco, o que faz viver valer a pena, mas deve olhar por onde ele a leva, para todos os lados, principalmente para frente.

     E assim ela alçaria seu voo imaginário. Não tão livre assim, afinal liberdade não tem começo, nem fim, nem horizonte... Apenas se busca ou inventa. Voaria, então, sem sair do chão.

pseudo: J. Prèvert

20100731

quimicamente feliz


Vida bizarra, mas linda! Apaixonante, e caótica, por vezes estressante, mas perfeita em seu mecanismo químico no meu ser.
Sou feita de um turbilhão mágico de reações neurobiológicas!

Às vezes, quase transbordo de epinefrinas, cortisol, feniletilamina, dopamina, oxitocina, endorfinas, hormônios... mas, sabe, por mais que algumas circunstâncias pareçam insuportáveis ou inadmissíveis, eu vivo tudo com o maior prazer!

 

       Aquele prazer de alguém que ri consigo de uma graça que está onde nenhum outro enxerga...
      

20100620

Emoção calada


Vi-o  lá embaixo, pela janela.
Entrou um tempo depois, só por minha causa.
Ficou esperando por mim, pela minha atenção.
Era bem o que eu queria
Estivera ansiosa para estar com ele, conversar.
Podia sentir o calor de sua presença,
Senão o de seu corpo,  quando se aproximou de mim.
Sua mão suave algumas vezes acariciava minha coxa inerte.
Tal como se fosse uma pluma que resvalasse sobre a pele desnuda...
Quanta ternura podia sentir além de uma perplexidade contida.
Eis o que esse gesto me causava.
Contudo não podia permitir-me qualquer emoção.
Apenas um afetuoso silêncio por dentro.

20100521

Je me cacherai là


Sans rien dire
D'un sourire
Faire semblant de ne rien voir
Aurais-tu pour me connaître
Si c'est un autre que tu vois
Comment d'un reflet différent
c'est l'infini de l'espace et du vent qui m' rend folle,
Qui me laissent femme,
Qui vaille d'être là
Il semble que mes bras soient devenus des ailes
Il semble que quelqu'un ait convoqué l'espoir
Le temps s'est arrêté, les heures sont volages, tout paraît inconnu
Le bruit du chagrin s'éloigne lentement
Et le bruit du passé se tait tout simplement
J'en connais même tellement ça me prend trop de temps
Je me cacherai là
A regarder
Je ne suis celle que tu croix

20100401

Fui e não sou


E me dá uma saudade de ser quem um dia fui,
Também, de ser o que não fui.
Agora, por enquanto, sou o que em mim flui...
Mas não sou isso.

- Tem um tesouro na casa ao lado.
- Mas não tem uma casa ali.
- Então construiremos uma.
Era isso que ela tinha a dizer para seu amado. Faltou ele chegar perto para ouvi-la.

20100320

Outubro


E lá vem ele.

Agora o fantasma poderá ser lúcido e nítido outra vez.

Pois que então venha logo me assombrar, daquele jeito que faz meus olhos brilharem, meu corpo tremer e meu coração disparar.
Quero desta vez mergulhar para o outro lado do seu olhar fugidio.

Aqueles abraços e o colchete


Se eu tivesse sido mais abraçada...
Por favor, mais um abraço daqueles magnéticos
(pedia eu)
Por este, eu faria um desvio de verso
[eterno só para nós...

Abnegação (2008)

Maurits Cornelis Escher (um gênio!)

'Eu não gosto desta letra gordinha e espalhada.
É uma mulherzinha muito espaçosa.'


OBS: na verdade, gostei desta com a qual digitei...
Quanto à frase, talvez minha mão deve ter achado a minha caligrafia um tanto inconveniente ao escrever Abnegação. Parece que soltando essa palavra naquele espaço, sem data que o comandasse, ia me soar melhor se eu a deixasse sozinha, para que nada pudesse dar razão ao seu sentido...
Não foi o que aconteceu. Tem um significado corrosivo demais...

Espaço livre 2008

Nem tão livre assim.
Afinal,
Liberdade não tem começo
Nem fim
Nem horizonte...
(...)
Risque outro fósforo, outra vida, outra luz, outra cor!

20100315

Dor também digital?


Amanhã*, fui discar, digo, escrever na agenda telefônica o nome Dorli,
mas a letra L demorou a aparecer...
E por um instante ficou escrito apenas Dor.
As bochechas molhadas me denunciavam e não era possível negar.
Sim, era verdade que estava sentindo-a em tudo. E muito.
Pelo menos o celular soube reconhecer sozinho, talvez, que ele,
às vezes...
... também me fazia sofrer.
Amanhã: página seguinte, 13/02.